quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vampiros : Extinção

 



                                                  VAMPIROS :  EXTINÇÃO


    A 14.000 anos no futuro um grupo com 10 seres humanos atravessa uma tempestade de areia num deserto causticante procurando qualquer abrigo.

    Quando encontram uma caverna ao meio dia a luz solar esta causando queimaduras de ultravioleta em quem não possui proteção na pele porém uma vez na parte interior eles relaxam descobrindo seus rostos das máscaras protetoras com óculos escuros.

    – Será que é aqui o lugar onde seu amigo falou Fulênio ?

      – Se não for também eu nem tenho coragem de sair lá fora pra achar a caverna certa.

    – Ele conseguiu mandar o sinal de algum lugar por perto daqui, isso é certo, de acordo com meu rastreador. 

    – Lucrécia, desligue isso agora e veja !

    Repentinamente das sombras surgem vampiros sedentos de sangue desarmando e dominando o grupo.

    – Calem a boca seus vermes. Parem com essa gritaria agora ! 

    O líder deles se posiciona no meio do grupo humano postos de joelhos e com suas presas a mostra fala.

    – Vocês conhecem algum Afonso ?

    – Sim ele me mandou um sinal de rádio nos convidando pra uma comunidade mais organizada por aqui.

    – Pois bem convidados, vocês serão bem vindos neste santuário se cumprirem as regras. Venham comigo.  

    Os vampiros soltam eles sem devolverem suas armas esperando que sigam seu líder com dentes retraídos agora e parecendo até ser alguém simpático adentrando a caverna.

     – Fulênio, vamos aproveitar pra fugir enquanto podemos !

     – Fugir para onde Lucrécia ? Estamos sem armas, sem água e sem forças pra enfrentar a tempestade lá fora.

     Levantando lentamente eles seguem o líder vampiro enquanto seus comandados somem de novo nas sombras.

     – Vocês, convidados do Afonso já eram esperados pelos sentinelas da entrada ou teriam de pagar tributo para entrar então fiquem tranquilos pois jamais serão atacados em nosso lar.

     – Eu não estou entendendo nada. O que esta acontecendo aqui ?

   Mesmo recebendo resposta Fulênio não escutaria pois ficou maravilhado quando eles estão saindo da parte rochosa na caverna para entrar no seu fundo customizado com paredes de mármore polido, ornado em cerâmicas e iluminado por lâmpadas elétricas.      

    Os humanos desligam suas lanternas enquanto o guia vampiro faz uma chamada num fone de parede.

    – Afonso, aqui é Soberbos; venha até a entrada lateral 6 imediatamente receber seus convidados.

    – Veja Fulênio, há outras pessoas vivendo aqui.  

    Lucrécia aponta para alguns homens fazendo manutenção mais adiante enquanto passam outros carregando caixas de alimentos que cruzam um corredor adjacente. Nisto um gordo baixinho mal vestido aparece por uma porta metálica como as demais. 

     – Amigos, que bom terem vindo; eu achei de vocês não conseguiriam achar a entrada.

     – Porr@ Afonso ! Você chamou a gente pra um lugar cheio de monstros !

     – Minha amiga Lucrécia mude esse jeito preconceituoso de pensar antes que ofenda alguém. 

     – Ofender ?!

     – Sim mulher ! Porque eles podem te expulsar daqui por muito menos que isso. Más antes de qualquer coisa vamos falar com o dono da casa.

     Eles caminham pelos corredores do lugar admirando a limpeza higiênica dali, onde percebem áreas de estufas cultivando variados vegetais além dos criatórios animais todos descritos por Afonso até chegarem aos portões.

      – Deixem que eu os anuncie primeiro mortais depois respondam as perguntas e não irritem o mestre.

      Soberbos entra na frente pedindo licença enquanto apresenta o grupo ao seu mestre que sentado no trono observa a todos com ar depressivo sem nada dizer, deixando sua cabeça sobre seu punho direito numa penumbra lúgubre que não deixa revelar detalhes das roupas nem do rosto.

       – Nosso monarca não esta com ânimo hoje pra tratar de assuntos supérfluos Soberbos então oriente você mesmo os novatos e não o irrite mais.

        – Claro Babonio, se eu soubesse nem os traria aqui pra serem conhecidos !

        Babonio volta para as sombras praticamente desaparecendo a não ser pelos olhos cor vermelho brilhante que repentinamente se fecham fazendo ele sumir entre entalhes nos murais atrás do trono

        – Vocês ouviram o porta voz que é auxiliar direto do mestre. Eu mesmo serei seu doutrinador. Assim a primeira coisa pra saberem deve ser, quem quiser ir embora vá agora.    

   Lucrécia ouvindo isto aproxima a boca no ouvido do marido Fulênio falando tão baixo que ele não escuta bem.

   – Vamos aproveitar e fugir daqui enquanto podemos.

   – O que disse ?

   – Ela disse que quer ir embora idiota porque como tinha dito antis vindo pra cá nos acha monstros !

   A voz do rei pega todos desprevenidos assustando até os vampiros ali presentes por ser profundamente rouca.

   – Não se ofenda grandíssimo senhor, eles nada sabem sobre sua casa más eu os convidei por serem úteis. 

   Afonso tenta amenizar a situação que pode terminar facilmente em morte.

   – Desculpe qualquer coisa senhor rei, minha esposa esta só assustada como todos nós que nunca vimos vocês.  

   – Primeiramente saiba que temos ouvidos muito poderosos e não gostamos de ser ofendidos em nosso lar.

   – Fique calado Fulênio, deixa comigo que eu já conheço como funcionam as coisas aqui – Acrescenta Afonso.

   – Senhor meu rei, se desejar eu posso punir estes desrespeitosos !

   – Continue de onde parou sobre as regras daqui Soberbos. 

   Estas últimas palavras são trocadas num volume tão baixo que só vampiros escutam.  

   – A segunda coisa a saberem é que aqui todos devem se respeitar ou serão punidos com expulsão, a terceira coisa é pagar em dia seu imposto…

    As regras vão se sucedendo mas o mais importante é saber do imposto cobrado em doação de sangue por mês válido para todos os humanos sendo assim os vampiros não precisam caçar homens se dedicando a suas tarefas principais: defesa, patrulhas e segurança (que inclui espionagem geral nos moradores, coisa não dita).  

    Na verdade neste lugar todos trabalham numa função qualquer com alguma importância entretanto apenas vampiros tem poder policial portando até armas como quem protege o gado numa fazenda.

    – Precisamos de pessoas com habilidades em equipamentos elétricos como vocês, por isto vão trabalhar nas plantações de cogumelos apenas quando não tiver nada dando defeito. 

     Soberbos parece não parar mais de falar e sempre daquele jeito inferiorizante aos meros mortais.

     – Monstros ! Ha-ha, não fomos nós que poluímos a terra nem envenenamos com radiação o ar durante guerras atômicas intermináveis tornando o planeta inabitável mesmo nos abismos oceânicos; isto tudo quem fez foram vocês os verdadeiros monstros do mundo. 

   Nisso o mestre se levanta revelando seu rosto das sombras falando de uma forma extremamente irritada.

   – CHEGA !  

   – Estamos perdidos Fulênio !

   – Me abrace, minha vida !

   – Soberbos, volte ao seu posto na entrada do santuário. Afonso disperse nos lugares correspondentes onde são necessários cada qual deles. Babônio me prepare um traje de passeio, eu desejo sair lá em cima.

   Todos obedecem sem nada responder indo para o que foram ordenados de um jeito acelerado.

   – Ele disse que ia sair. Más pensei que vampiros morressem na luz do sol !

   – E morrem como quase tudo Lucrécia; só que este é o rei deles: mais velho, mais forte, mais rico…    

   – E mais irado também. Porque nos chamou pra um lugar perigoso desses Afonso ?! 

   – Pode parecer perigoso minha amiga más eu lembro o quanto a gente sofria na biosfera (habitat artificial) com todas aquelas restrições e racionamentos. 

   Enquanto fala Afonso vai levando cada um deles aos seus cômodos mostrando o lugar enorme a eles aí neste   processo relembram porque precisam permanecer aqui pois onde estavam era pior. As biosferas foram criadas para sustentar vida humana em outros planetas, porém na medida que nosso mundo foi sendo poluído as pessoas vão tendo de usar elas nisso sofrem os efeitos restritivos causadores dos colapsos sucessivos delas.

   Muitos grupos que podiam (principalmente os ricos) foram colonizar outros mundos deixando para trás quem não tinha recursos (pobres miseráveis) com nossos maiores predadores pois as radiações cósmicas destroem eles também assim teriam de viajar em câmaras criogênicas reforçadas no chumbo (caixões congelados) limitando bastante seus números pela galáxia. Na Terra, vampiros estavam infiltrados nas sociedades onde tratados como seres mitológicos caçavam discretamente nisso a própria raça humana intóxica seu meio ambiente forçando uma mudança no estilo caçador noturno pro criador subterrâneo.

   Acostumados a consumir dos doadores em bancos de sangue oficiais com participações até nos governos, os mais sábios deles investiram pesado na infraestrutura em comunidades escavadas no subsolo. Ganhando vários nomes estes lugares ficaram mais famosos quando chamados de santuários pois seus muitos moradores tinham um sistema para viver quase religioso em suas regras seletivas como na reciclagem por exemplo. Neste contexto criaram essa comunidade a princípio ocultando quem seu fundador era mas depois revelando sem medo pois existem poucas opções lá fora na superfície.  

    Diferente duma biosfera, um santuário possui uma infraestrutura dezenas de vezes superior sendo priorizado na hora da escolha para viver. Não era isso que Afonso procurava quando saio da sua pra garimpar em velhas ruínas sendo resgatado ali após misterioso mau funcionamento do veículo que guiava durante chuvas ácidas inesperadas e resolveu residir entre seus “salvadores” inclusive convidando antigos amigos deixados para trás a meses como Fulênio e acompanhantes.  

    – Lucrécia, espero que tenha entendido a não falar tudo quanto pensar aqui.

    – Se teu amigo avisa quem comanda nesse lugar eu nunca teria deixado você me trazer.  

    – Eu mesmo não viria meu amor se soubesse, mas agora que chegamos vamos ver como será. 

    – Dizem que vampiros hipnotizam as pessoas e talvez por isso todo mundo gosta de morar com eles.

    – Pelo amor de Deus Lucrécia mesmo estando em nosso quarto o sistema de segurança deles pode estar nos ouvindo. Olha pra isto, se te fizer sentir mais segura use em baixo da roupa pra evitar qualquer dominação.

    Um crucifixo numa pequena corrente é posto no pescoço dela enquanto ele tenta calar sua boca com beijos.

    – Só vou me sentir segura quando puder sair daqui pra garimpar nas cidades perdidas.

    O casal vai praticar intimidades na privacidade de seu cantinho romântico, ai nisso fora do santuário alguém esta se afastando com todo corpo coberto estilo beduino mais óculos escuros enfrentando um sol que mataria até humanos por câncer na pele. Seu nome é Altemaquilope, mais conhecido nesses tempos como Altair, o único rei vampiro a ter quase 30.000 anos, tão velho quanto temido pelos próprios súditos.

   Recentemente descobriu que mesmo morrendo sob a luz solar quando fica sem poder ele ressuscita a noite e caso seu corpo seja destruído dali o segundo vampiro mais velho será transformado nele abrigando sua alma  fazendo dele indestrutível.

    Neste momento ele se encontra profundamente melancólico com toda sua história sempre repetindo ciclos intermináveis onde após dominar o poder é deposto por traidores passando eras aprisionado ai depois libertado pelas gerações posteriores que levando sua pessoa ao trono começa tudo novamente.

    Foi assim na primeira vez quando passou acorrentado num sarcofago uns 2.000 anos sendo libertado pelos oprimidos governados por tiranos sanguinários dos seus parentes quase arrastando o reino à guerra mundial com as colônias rebeladas, coisa acontecida mais tarde na segunda traição. Dai lembra agora da última que custou-lhe 450 anos aprisionado no cimento plástico e ao ser solto havia poucos humanos para predar tendo de reorganizar novas formas alimentares destruindo tradições milenares assim fazendo muitos inimigos.               

      A vários vampiros querendo invadir seus domínios atuais, mas pior que isso são aqueles desejando tomar seu trono infiltrados dentro do reino sem ter como ele perceber e nesse pensamento retrógrado percebe algo vindo no céu, uma nave lembrando um casco de tartaruga sem cabeça nem patas.

       Parando bem acima dele esta nave o analisa totalmente ainda sob a luz solar que anula seus poderes dando aos sensores uma constatação simples de humanidade nele, então sendo abduzido ele dentro daquela gigantesca estrutura retoma seu poder usando apenas aquele dom adquirido na última possessão quando obteve telepatia do segundo imortal mais velho.

       Seus captores são humanoides com no máximo 1,50m (um metro e meio) tendo cabeças enormes sem cabelos ou pêlos à mostra.

       Nas mentes destes alienígenas é descoberto deles serem descendentes dos primeiros colonizadores a viver num mundo semelhante ao nosso porém com menos gravidade dando-lhes este aspecto morfológico adaptativo pelo ambiente vivido lá em 10.000 anos então vieram aqui buscar indivíduos com características genéticas ancestrais para combinar nos da sua raça. Assim as poucas centenas de humanos daqui serão levados do planeta e assimilados por eles.

       Não existe nada preparado aqui para transferir os vampiros que deverão se insinerar no espaço devido a falta de blindagem dos raios cósmicos na nave pois nem sabem como eles dominam este mundo nos poucos refúgios subterrâneos onde estão toda humanidade, até desconhecendo deles viverem.     

       Altemaquilope decide lutar contra tudo isso descoberto nestas mentes evoluídas esquecendo que extinção é o único remédio para sua melancolia depressiva ai se libertando do tubo extrator de genes onde seria dilacerado em nível celular vai em direção aos controles mas nisso os sensores detectam alterações nele após sua captura como ausência cardiovascular redeterminando ele com classificação mutante imprestável aos interesses da missão recomendando exterminio ou descarte.

       Ele usa todas as armas a sua disposição além dos poderes e chega próximo dum alienígena podendo sugar seu aguado sangue impróprio ao consumo vampírico que é cuspido na sequência mas lhe dar tradução para este idioma dispensando poder telepático. Infelizmente um armamento molecular disparado pelas costas por outro ser      

faz sua carne se desintegrar deixando apenas os ossos secos caídos pelo piso metálico.

      No santuário Soberbos está imóvel como sentinela naquela entrada lateral onde comanda um reduzido grupo defensor quando começa uma transformação dolorosa daquele corpo magro esquelético e cor pálida acinzentada no rei Altemaquilope, aqui conhecido como Altair. 

   – Mestre supremo Altair, o senhor reencarnou novamente !

   – Soberbos era o mais velho entre vocês e eu mantendo Babônio por perto achando ser ele meu próximo corpo

mas esqueçam disso agora porque seremos atacados em segundos então acionem o alarme. 

    – São eles de outro santuário, senhor ?

    Outro subordinado fala com ele que nada respondendo vai indo em direção ao trono onde convoca seus lacaios principais como Babônio ocupado ali na limpeza espanando uma poeira interminável. 

    Altair ainda esta falando da convocação quando um terremoto surpreende os dois, mas diferente do esperado as pedras não caem em desmoronamentos apenas flutuam para o teto que racha e segue abrindo.

    – Se estamos sob ataque, como vamos nos defender disto, mestre ?

    Acima deles no deserto a nave esta usando as mesmas luzes antigravidade que capturaram Altair para escavar toneladas de rochas indo sempre mais fundo revelando o santuário como se fosse um formigueiro, coisa repetida em muitas regiões no planeta. 

     A Terra inteira esta recebendo visitantes pelos continentes com várias naves atacando os grandes refúgios para certamente buscar as biosferas depois.        

      – Não faço a minima ideia Babônio. Más nunca vou deixar que roubem meu alimento da minha casa sem resistir impiedosamente contra lá seja quem for. Abram o arsenal !                                                                            

       – Sim senhor.                                                                            

       Armas futuristas projetadas num período glorioso anterior a este decadente tempo miserável são distribuídas aos guardas vampiros que aproveitando o sol poente disparam para cima mal arranhando na nave sua blindagem excepcional enquanto dezenas estão sendo abduzidos nos raios flutuadores causando incineração tão logo os não humanos saiam da sombra protetora antes do compartimento aberto recolher eles.      

       Nisso, muitos ainda nem se deram conta do conflito protegidos num nível inferior como Fulênio e Lucrécia que distraídos no acasalamento continuam a diversão.

        – Nossa, desta vez eu senti o quarto tremer !                             

   – Tomara que não tenham escutado seus gemidos Lucrécia porque privacidade aqui não é regra. 

   – Que estranho ainda sinto tudo tremer.

   – Na verdade eu também sinto, apesar do meu corpo esta tremendo, mais ainda por sua causa.

   – Parece que tem gente chamando na porta. Se veste e vai ver quem é Fulênio. 

   Eles não sabem que o forro do anteparo no quarto é a prova de som e Afonso esta batendo na porta metálica com uma marreta aplicando toda força.

   – Quer saber ? Deixa bater porque tá muito gostoso aqui, uma hora eles cansam e pensam que a gente saio !

   – Eu sei mas não era tu que dizia pra gente moderar por sermos novatos ?!

   Deitados em conchinha ainda entrelaçados estando ambos cansados só em pensar de levantar é torturante apesar disso Fulênio vai envolto num lençol acionando uma alavanca e abrir a porta.  

   – Achei que teríamos 12 horas de descanso Afonso, pra que nos chamar agora ?!

   – Vocês não estão ouvindo o alarme ?! Estamos sob ataque…

   Sem tempo para completar a frase, ele aponta enquanto um terremoto faz as coisas caírem ao contrário do chão pro teto que se abre acima da cama erguendo Lucrécia numa histérica gritaria.

   – EI QUE MERDA É ESSA !

   Fulênio ainda tenta alcançar a mão da esposa sendo erguida pela luz, mas Afonço o segura impedindo dele ser também levado.

   – Pare seu louco, não sabemos o que esses invasores querem conosco.

   – Me larga Afonso, minha mulher tá sendo levada.

   Ela envolta em lençóis esta flutuando por andares ainda vendo o marido abaixo gritando por seu nome com um braço erguido na sua direção, coisa que imita igualmente enquanto ambos se afastam a cada momento tenso deste drama quando Altair pega na mão dela impedindo aquela abdução.

    – Pare de gritar mulher e me agarre com força.  

    Sendo puxada para ele estando muito nervosa, Lucrécia não entende esta sendo salva pegando com a outra mão no crucifixo entre os seios expostos.   

     – NÃO ME MATA, POR FAVOR !   

   – Jamais te matarei criança inocente, pelo contrário estou te salvando. Confie em mim e me agarre.  

   Ela o agarra pelo pescoço nas suas costas enquanto escalando ao contrário ele desce pelo paredão como um morcego faria usando garras afiadas para seu apoio enquanto se aproxima do marido desesperado abaixo mesmo sentindo dores devido a contatos acidentais com aquele crucifixo.

   Estando praticamente nua apenas coberta pelo fino lençol, ela é entregue ao marido por Altair ainda suspenso e revela no momento da entrega estar com a costa ferida em queimadura de 3º G (terceiro grau) pelo crucifixo. 

   – Lucrecia meu amor. Obrigado mestre Altair !

   – Não me agradeça porque quase desisto desse salvamento. ARR !

   Neste momento ele cai do que sobrou daquele teto parecendo sentir muita dor mas recusando qualquer amparo dos presentes manda Afonso acionar na parede o fone com uma mensagem de fuga.

    – Atenção todos ! Por ordem do mestre Altair, fujam pro corredor de emergência imediatamente.

    Nisso chega Babônio desesperado para acudir seu mestre sendo também rejeitado por ele que já em pé confirma sua ordem ao servo acelerando a todos no comprimento imediato dela.

    – Parem de perder tempo idiotas e vamos pro túnel de fuga !  

    Lá fora o rombo feito no Santuário já cabe a nave que continua escavando enquanto entrando no buraco ainda captura pessoas agora com bem mais eficiência. 

    Mais da metade dos moradores consegui chegar no tal corredor no nível inferior desta estrutura para fuga. 

    – Mestre, eu me prontifico a detonar as bombas demolidoras assim que todo nosso alimento passar.  

    – Não será necessário, só acione a contagem regressiva e quem não conseguir passar que se fôda !   

    Babônio obedece cegamente como sempre, afinal ele é descendente de ciganos um povo historicamente protegido pelo rei devido a tratados milenares feitos ainda na última era do gelo 28.000 anos atrás fazendo deles servos eternos más nunca predados e raramente sendo transformados.  

     A 10.000 atrás um surto de câncer cerebral atacou toda humanidade matando ao menos metade dela até serem  descobertas curas baratas pro povo mas antes disso um pobre homem com essa doença estaria condenado a uma morte dolorosamente certa e este seria o destino do Babonio se não pedisse que seu amo transformasse ele num imortal dedicando tal vida na eterna servidão.

     Daí que ser voluntário para missões suicidas não é só lealdade e sim o mais puro costume lapidado a rotina.

   Os ciganos descendem dos gipis no ramo romanis portanto enquanto mantenham suas tradições estarão sob proteção pessoal do rei vampiro. 

   – Babonio conte quantos somos enquanto eu vou falar a todos.

   O túnel leva para uma espécie de estação onde esperando por eles está algo semelhante a um metrô magnético.

   – Sim Mestre.

   – Se reúnam em grupos de 20 e ocupem os vagões dos últimos aos primeiros e não demorem porque eles podem estar nos rastreando nesse exato momento.

   Sua voz sai tão alto que parecia ter saído dum megafone ai começam a ocupar os espaços enquanto o final do túnel por onde vieram desaba impedindo de serem perseguidos.   

   – Mestre somos 151. 

   – Perfeito para 8 vagões e ainda vai sobrar espaço. 

   O transporte parte acelerando aos poucos naquela caverna escavada a milênios com ares de não ser utilizada faz o mesmo tempo tendo Altair no primeiro vagão com os principais subalternos e alguns humanos.

    – Senhor eu gostaria de agradecer pelo meu salvamento porque naquela hora de pânico acho que esqueci.

    – Não há o que agradecer criança, sua segurança é minha obrigação.

    – Más o Senhor se machucou por minha causa e gostaria de ao menos cuidar do ferimento.

    Ele ri pensando nos incontáveis ferimentos a que sobreviveu e muitos por aqueles de quem jurou-lhe lealdade. 

    – Nem ligue, eu me curo rápido. Veja !

    Ele mostra as costas e para o espanto geral a ferida em forma de cruz está inflamada 

    – Esta maldita mulher foi culpada por isto ?! Mestre deixe que eu a mate com uma cruel tortura !

   Com o olhar irritado de quem foi desobedecido, Altair fala numa frequência tão baixo que só vampiros ouvem.

    – Idiota, já disse mil vezes pra falar baixo sobre certas coisas que apavoram nosso alimento ! 

    Para Lucrécia ele apenas deu um olhar reprovador e Babonio se ajoelha pedindo perdão ao mestre.

    – Juro que não era essa minha intenção quando coloquei este talismã senhor e pra provar vou jogá-lo fora.

    – Espere, pelo contrário, guarde ele porque algo capaz de me ferir pode protegê-la de certo imprudente aqui.

   Ele diz isto olhando para seus lacaios que entendem a indireta abaixando suas cabeças principalmente Babonio nisso permitindo que Lucrécia cuide da ferida viajando sem contratempos nem nada mencionável, apenas uma breve recomendação quando Fulânio vem ajudar ela no serviço de enfermagem.    

   – Vou aplicar o curativo spray senhor, não mexa agora.

   – Entendam crianças, a unica coisa que rende uma pena de morte aqui é traição, isto eu não perdou já quem me falta com respeito eu puno severamente más tolero vivo.  

   Novamente ele fala olhando para Babonio que baixa os olhos envergonhado e continua com novos assuntos.

   – Em minha primeira vez fiquei aprisionado por milênios e fui libertado pelos meus servos humanos chamados gipis pra cumprir um velho pacto de proteção, coisa que fiz com prazer exterminando seus tiranos meus filhos.

   – Licença senhor, com sua experiência seria muito vantajoso nos instruir sobre artefatos antigos que às vezes desenterramos das ruínas e ninguém mais sabe como funcionam. 

   – A menos que descubram algo de real valor suas explorações arqueológicas pra mim não passam dum revirar sem fim do mais desprezível lixo pois eu estava lá quando as últimas cidades foram abandonadas.   

   Lucrécia com os outros novatos realmente reviram os escombros e o real valor do que acham é saber suas serventias antigas para usá-las como moedas de trocas.        

    – Mestre estamos chegando.   

    Babonio interrompe com o infra som avisando do destino alcançado então providências são tomadas tão logo aquele estranho veículo desacelera lentamente num refúgio emergencial muito inferior ao deixado para trás. Daí até foi melhor terem tido tantas perdas, enfim eram 2.655 moradores entre estes 76 vampiros cada um precisando de 20 doadores humanos por mês no mínimo assim estavam bem providos, infelizmente não tendo agora metade da proporção necessária à boa convivência.

     – Somos ainda 33 consumidores pra dividir poucos doadores mestre, por isso 26 de nós vão ter de hibernar. 

     Tão rápido quanto todos estão instalados começam a ligar os receptores para saberem notícias do mundo.

     – Tomem cuidado pra não serem rastreados até aqui.

     – Não se preocupe mestre temos os melhores aparelhos ocultadores, além disso veja que tá valendo o risco. 

     Os rivais de Altair por toda parte também estão caindo, fazendo ele pensar sobre ter uma nave com blindagem especial para vampiros e fugir da terra procurando colônias humanas favoráveis.   

   Alguns outros também estão monitorando as informações exteriores, entre os humanos se assentando em toda parte do complexo estão Afonço, Fulênio e Lucrécia já vestida com decoro. 

   – Desculpe amigos, eu nunca imaginei que algo assim fosse acontecer bem no dia em que vocês chegaram.

   – Sem crise Afonso, só ativa logo esse aparelho pra gente saber o que tá havendo lá em cima.

   – Está feito Fulânio, vamos saber agora.

   Uma mensagem vinda das naves invade todas as frequências devido a resistência nas comunidades mundiais,

   – ESCUTEM IRMÃOS, EU ME CHAMO PILANTRUS E ESTOU NUMA NAVE DOS VISITANTES QUE NÃO PODEM SE COMUNICAR DIREITO CONOSCO POR ISSO ME ESCOLHERAM PRA AVISAR VOCÊS DELES ESTAREM NOS RECOLHENDO A UM MUNDO MELHOR ENQUANTO NOSSA AMADA TERRA SE REGENERA PELO ABUSO DA POLUIÇÃO.

   – Más que merda é essa !

   – Espera ai amor, ele ainda não terminou.

   – ELES SÒ VÃO FICAR AQUI MAIS 10 DIAS, ENTÃO AVISEM ONDE ESTÃO PARA O RESGATE SER FEITO SE NÃO VÃO TER QUE FICAR NESTE PLANETA DOENTE ENQUANTO NÓS VAMOS AO PARAÍSO NAS ESTRELAS SEM CÚPULAS DE BIOSFERAS OU ABRIGOS SUBTERRÂNEOS.

   – Mestre, muitos estão ouvindo esta transmissão. O que faremos ? 

   – Se usam psicologia como arma nós contra atacamos do mesmo jeito; vou preparar um discurso e marcar uma reunião geral para aplacar qualquer deserção.

   Praticamente todos pensam na mesma coisa de como não tentaram avisar isto antes de aspirarem eles.  

   – Sinto que tem alguma patifaria nessa conversa!

   – É amor, más tinha de haver um jeito de confirmar essa história. Vai saber se não estão falando a verdade. 

   – Amiga Lucrécia eu concordo com teu marido, temos de achar um jeito pra descobrir a verdade.   

   Analisando os aspectos deste fato Altair relembra que na mente do visitante visto na nave eles querem dos humanos, é uma assimilação rápida seja lá como for o significado disso.

   Nem ele com telepatia sabe suas verdadeiras intenções com certeza mesmo lembrando daquela máquina de dessecação ao nível celular pronta para estraçalhar seu corpo onde ficou preso. Dai lendo as mentes dos seus protegidos vê quase todos pensando o mesmo sobre uma confirmação, resolvendo então fazer isso.

   – Muito obrigado por todos virem a essa reunião pois como sabem os chamei pra comentar sobre a mensagem inimiga feita pra nos confundir e acreditem sendo o mais velho aqui já vi muitas delas enganando nações inteiras. 

   A reunião é feita tão logo possível e o rei começa pelo assunto mais importante.

   – Senhor, ninguém aqui acreditou naqueles mentirosos malditos. – grita alguém no meio da multidão.

   – Sinto que estas palavras são apoiadas por muitos mas alguns poucos têm dúvidas, por isto estou disposto a eu mesmo confirmar toda verdade e pra isto vou precisar desta mulher.

    Ele aponta para Lucrécia causando espanto geral enquanto esperam uma explicação lógica para tal fato.

    – Eu, é comigo mesmo que esta falando ?!

   – Sim criança, você tem a fé forte o que confirmei quando me feriu sem querer nas costas e isto te faz apta pra lidar com forças cósmicas conhecidas aqui como magia. Então se aceitar te ensino como usar seus dons ocultos.

   Ela ainda apontando seu próprio corpo escuta isto aceitando em pânico meio desnorteada com a afirmação. 

   – Calma amor, vamos entender primeiro o que isto significa.  

   Fulânio abraça ela de lado beijando seu rosto enquanto Altair fala compassadamente explicando cada aspecto do plano. 

   – Entendam, muito do que acumulei sobre artes místicas deixei em lugares como este ao longo de milhares dos mais conturbados anos. Assim posso fazer pessoas com aptidões naturais iguais as dela aprenderem rapidamente todo o necessário aos nossos interesses sem sermos descobertos.

   – Eu vou aprender estas coisas antigas, senhor ?

   Ela pergunta sem esconder o interesse uma vez que poderá usar estes conhecimentos nos garimpos.  

   – Sim criança, teremos 9 dias para estudar até você poder descobrir verdades ocultas e me dizer o significado do termo assimilação que eles querem pra vocês.

   – Desculpe interrompê-lo senhor, mas com tanto tempo de vida como não aprendeu tais coisas ?

   – Quanta impertinência, deixe-me puni-lo mestre ! 

   Desta vez Babonio fala num volume baixo comentando a pergunta de Fulânio ainda abraçado a esposa.

   – Porque feitiçaria cria vampiros. Mas vampiros não criam feitiçaria, entendeu rapaz ?   

   – Não mas tanto faz, contanto que ela esteja segura eu apoio seu plano senhor.

   – Então vamos pôr as mãos em obras. – Altair diz isto com o olhar reprovador ao servo ainda indignado. 

   Após a reunião ser dispersada Altair leva um grupo restrito para sua biblioteca particular mantida em cada grande esconderijo seu.

   – Mestre a biblioteca do santuário era mais abrangente que esta, é uma pena tê-la perdido.

   – Eu tenho muitas cópias espalhadas das coisas mais importantes Babonio, tipo como este livro aqui.     

   Pegando com a mão direita o velho livro ele descreve quando encontrou seu escritor Enoque um sacerdote que viveu no atual oriente médio anterior ao dilúvio causado pelo afundamento atlante. Este homem tinha imenso conhecimento cósmico numa época onde isto era meio considerado misticismo e deixou escrito importantíssimos pergaminhos como aquela cópia traduzida. 

   Folheando páginas ao acaso, ele para nas específicas sobre projeção astral citando importantes trechos  por onde Lucrécia deveria começar os estudos. 

   – Senhor, eu desconheço essa escrita.  – Babonio ri discretamente.

   – Deixarei Babonio como seu intérprete tradutor aqui enquanto teu marido deve cuidar das tuas necessidades como alimentação, higiene, ou seja lá o que for. – Babonio range os dentes.

   Prevendo alguma dispersão por parte da economia arqueológica atual ele avisa que devem concentrar esforços no conhecimento indicado agora para num momento mais tranquilo traduzirem na linguagem deles artigos pessoais encontrados em escavações de garimpo onde trocam achados como dinheiro pelos produtos desejados e depois os deixa estudando. 

   24 horas se passam aí retorna Altair cobrando quais avanços foram consolidados.

   – Os pergaminhos enoquianos mostraram alguns desafios que devo superar antes de começar meus primeiros saltos fora do corpo senhor enquanto preparamos os detalhes eu poderia saber o que realmente aconteceu a ele ?

   – A História é complicada menina mas vai servir pra passar o tempo enquanto estes trapalhões preparam os detalhes do primeiro desafio. 

   Fulânio está tentando pintar no chão símbolos complicados, nisso babonio erra uma marca tendo ambos que apagar tudo recomeçando. Então Altair fala para Lucrécia sobre quando foi conhecer um famoso mago chamado  Enoque antes da segunda traição esperando ajuda com seu poder em aspectos ainda desconhecidos, no entanto ao chegar onde seria hoje a Pérsia não foi bem recebido pelo anfitrião da casa. 

   – Não te dou permissão pra entrar em minha casa criatura maligna.     

   Diz Enoque ao visitante na porta principal de um templo escavado em rocha maciça.

   – Como assim, tu sabes que sou o imperador do mundo e posso mandar reduzir tudo a pó aqui ?

   – Não vou receber um demônio a noite em meu lar. Volte de dia se puder e sozinho. 

   Altair tenta invadir aquela residência sagrada mas desiste por sentir uma invisível barreira de dor e ao voltar durante o dia sem acompanhantes (guardas armados) é recebido com melhor cortesia.  

   – Preciso de ajuda pra dominar estes grandes poderes ó grandioso Enoque.

   – Eles são uma abominação maculando tudo a sua volta até o mundo inteiro ficar tão podre quanto você mesmo é em espírito.

   Sem poderes Altemaquilope poderia ser facilmente contido por Enoque que decide não tirar proveito disso explicando-lhe a situação o mais simples possível descrevendo um criador universal divino como verdadeiro Deus eterno (sem começo nem fim) possuindo ajudantes semi-deuses (na verdade humanos que foram nas primeiras migrações viver em colônias espaciais) conhecidos por muitos nomes tais seres eventualmente vinham para terra fisicamente sendo frequente porém as visitas mentais.    

   Projeção astral limita gastos com recursos raros evitando também os perigos inerentes das viagens espaciais fazendo infelizmente primitivos acreditarem em fantasmas, anjos ou entidades mitológicas.

   – Então tu mantém contato constante com seres celestes e o que disseram sobre mim ?

   – Que o grande imperador aceitou se tornar infinito (começa mas não tem fim) por um desejo egoísta realizado por renegados assim contaminando todo planeta tendo nosso mundo de ser purificado.   

   Os renegados são o que chamamos de criminosos pois usam seus conhecimentos só em seus benefícios ou para destruir a humanidade terrena por terem sido condenados ao exílio perpétuo pelas suas maldades.

   – Como farão isto ?

   – Não sei mas com tantos: bebedores de sangue, gigantes (últimos neandertais) e feitiçarias isso deve ser feito.

   – Uma limpeza genética em larga escala eliminando imperfeições na criação !

   – Não, só malditos como você que é incapaz de obedecer regras sejam elas quais forem. Ao menos faça um bem, eu já terei partido daqui bem antes, no entanto deixarei todos os meus pergaminhos contigo os protegendo para compartilhar quando necessário com toda humanidade.  

   – E quando farão tal purificação mundial ?

   – Também não sei, mas pedi que meu filho recém nascido Matusalém já tenha morrido neste dia e me foi prometido até seu último dia de vida nada acontecer.    

   É estimado que Matusalém tenha vivido uns 900 anos, quando finalmente morreu seu último dia deu início ao cataclisma de término da era glacial parcial.

   Até Enoque ser levado às estrelas ele ajudou Altemaquilope contendo aquela natureza nefasta dele durante a noite tendo encontros apenas na luz do sol, se tornando enfim um guardião daquela sabedoria e outras depois.

   As lembranças deixam de ser revividas quando o agora Altair, ex imperador mundial, vê terminada cada pintura mística rústica dando início assim aos desafios de Lucrécia.

   Ela fica sentada nos símbolos circulares, bem ao centro deles, com as pernas em posição de lótus bastante relaxada tendo cada mão sobre uma coxa enquanto respira fundo entoando mantras sonoros frente a estantes recheadas dos mais diversos livros. Daí sua missão é vê algo escondido atrás destes obstáculos usando só os olhos mentais sem se desprender do corpo ainda.

   – Vejo Fulânio segurando esferas circulares como mapas. É um globo terrestre com a lua ?

   – Não pergunte, apenas afirme o que vê criança.             

   Enquanto Altair a repreende manda Babonio segurar novos objetos fazendo sinais de mãos.    

   Em certo momento Lucrécia fica exausta adormecendo mas mantendo uma média de acertos em 50% no desafio, coisa ainda abaixo do esperado, mesmo assim assim satisfatória porque ela nunca errava somente dizia não conseguir ver nada.  

   – Espere, o que vai fazer ?

   – Vou acordar minha esposa, senhor, pra dormir em nosso cômodo.

   – Não. Deixe ela como estar, isso faz parte do processo.

   Ela acorda renovada minutos depois aumentando sua taxa nos acertos para adormecer outra vez, demorando um pouco mais agora num recorrente ciclo.  

   – Babonio, pegue aquele cone azul no tripé e leve atrás da prateleira pra fazer mais testes.

   – Senhor, se vocês falarem quais objetos vão esconder não vai adiantar muito esse exercício. 

   Altair havia falado na frequência baixa pro lacaio e notar que ela escutou faz os vampiros se entreolharem espantados, dando por finalizada essa fase. 

   – Amor, eu não escutei eles falando nada. O que você escutou ?

   – Estavam combinando do seu lado qual coisa iam colocar pra eu ver pela mente.

   – Nossa mãe de Deus, será que desenvolveram uma comunicação a baixo volume já que ouvem tão bem ?!

   – Isso é coisa que pensamos depois, agora eu estou cheia de recomendações pra estudar. 

   – Recomendações ?

   – Sim, mentes podem me perceber fora do corpo e talvez me rastrear até aqui descobrindo nosso lar.

   – Tudo bem meu amor vá estudar enquanto vou ver se Afonso precisa de alguma ajuda e na volta te trago um lanche da cozinha coletiva que montaram lá nos fundos.

   Eles se despedem com um rápido beijo nos lábios no estilo selinho indo cumprir os serviços propostos a ambos enquanto Babonio expõe ao mestre o perigo de Lucrécia divulgar segredos da comunicação dos vampíricos para humanos saberem suas conversas privadas. 

    – Logo você que sempre esquece de usar quando se exalta vem me falar da importância em manter sigilosa nossas conversas particulares !  

    – Me perdoe novamente mestre, nem de longe me comparo a sua sabedoria pois confesso que mataria  ela se ferisse meu corpo como o feriu nas costas. Más ao mante-la pode usar seus dons em proveito próprio, no entanto deixar espalhar notícias sobre certas informações é tão perigoso quanto minha ignorância afirma.  

     – Muito bem, mantenha o marido confinado com ela providenciando você mesmo todo necessário pra que não precisem sair. 

    Outro vampiro interrompe afirmando que ele já saiu então Altair manda alguém buscar Fulânio antes dele alcançar amigos no refeitório e comente fatos indevidos. Problemas resolvidos fazem Altair relaxar disto indo conferir símbolos protetores ocultos nas paredes nublando prováveis projeções astrais inimigas que certamente devem estar varrendo o planeta neste exato momento.

    Os dias vão passando com uma assimilação que Lucrécia nem sabia possuir direcionada as tarefas em questão para no quarto dia um teste ser organizado almejando ver quanto ela iria descobrir sem sofrer retaliações dos visitantes.

    – Muito bem criança, o primeiro teste prático será descrever onde as naves estão; saindo da contra percepção, aí uma vez alcançado esse objetivo procuraremos outros novos.  

    – Você está pronta amor, acha que consegue ?    

   – Sim, podem deixar comigo, tudo bem, vamos lá !  

   Ela está de olhos fechados mas enxerga tudo na sala da biblioteca das coisas materiais as imateriais como os muitos espíritos gritando (louvado seja Oxumaré) e essa pequena distração desfaz sua concentração atrapalhando uma saída do corpo eficaz. Escutando o motivo desse fracasso, Altair a manda descansar para próxima tentativa sem presença dele ali, só que antes disso Lucrécia pergunta quem eram aqueles seres. 

   – durante à antiguidade fui tido como um Deus pelos muitos lugares em que vivi tendo devotos fervorosos se doando em sacrifícios sangrentos para me alimentar. Talvez estes mortos ainda venerem a mim de todo íntimo sendo encostos (espíritos que permanecem num lugar ou perto duma pessoa) para sempre por isso só ignore-os.

   – É uma tremenda dedução. O senhor poderia dizer alguns destes lugares e quais deuses expirou ?

   – Fazem já milênios que estive neste contexto mas lembro de ser: Rá no Egito, Montezuma no México, Baú na Mesopotâmia, Zeus na Grécia, Odin na Escandinávia e Oxumaré na África Central.

   – Era sempre o patriarca dos Panteões em todas regiões onde passou senhor ?

   – E o que mais ele seria jovem tola e desrespeitosa ?!

   – Eu respondo por mim, Babonio. Sim criança e eu criava vampiros para auxiliar minha governança.

   O Lacaio pede perdão retornando a silenciar nas sombras dando para todos uma noção do tipo espiritual que devia cercar Altair cuja explicação contínua de quando ensinava ciências esquecidas aos povos após cataclismas regredindo sociedades as nada civilizadas selvagerias, desconhecendo elementos fundamentais como agricultura. 

   – Talvez este seja seu verdadeiro papel básico no equilíbrio cósmico mencionado por Enoque senhor.

   – Ele citou, a mim diretamente num livro, onde ?

   – Apenas indiretamente ao dizer que de alguma forma conhecimento deve ser preservado e disseminado

depois duma “purificação” no mundo senhor.

   – isto é uma coisa a se pensar, afinal sempre achei ser eu o causador maior dos males na terra.

   – Certamente as mesmas forças cósmicas que te condenaram também o fazem buscar equilíbrio senhor.

   – Talvez sim, mas agora descanse pois ainda não cumprio sua tarefa, criança.

   Agora sem Altair presente, Lucrécia sai do corpo dando uma volta no globo contabilizando 50 em toda parte subtraindo a humanidade.

   Retornando ao corpo toda informação é repassada colocando temor nos imortais que se isolando confabulam sobre quais decisões devem tomar para evitar sua eventual extinção.

    Apagando todas as luzes no reduto onde estão ele espera alguns segundos seus servos se adaptarem nas trevas e logo depois apontando pros símbolos místicos pelas paredes afirma não estarem em brasa significando dela ter voltado sem ser seguida mentalmente.     

    – Podemos falar abertamente, mestre ?     

    – Sim, estes alienígenas não são os primeiros colonizadores que foram as estrelas tendo desenvolvido poderes místicos grandiosos como: telepatia, telecinese, pirocinese, projeção astral e premunição. 

    – Então mestre, por serem estes seres mais fracos como devemos proceder.

    – Simples. A muito tempo atrás alguns feiticeiros tanto descobriram como criaram métodos para imortalizar, dentre eles Arrasaverus fez o melhor usando magia e tenho aqui cópias de seus manuscritos preservados.  

    – Pretende criar exércitos de imortais mestre ?!

    – Não seja tolo, todo imortal feito será dos visitantes com magia para terem características nesta geração  

mais favorável ao espaço.

    – Mestre, eu sou o mais recente entre nós e desconheço que características são estas ?

    – Para começo de conversa eles viram humanos à luz do sol e só isso já é muita vantagem.

    Altair se mantém no centro do grupo debatendo questionamentos onde raras vezes alguém acrescenta algo de sábio. Geralmente vampiros são mais instintivos não dados aos planos complicados como os feitos pelo mestre, mas todos aqui entenderam que gerando imortais entre inimigos capturados vai beneficiar um deles apenas. 

     – Estamos aqui para servi-lo mestre, essa é nossa missão de vida e minha única função.

     – Babonio, sua lealdade será recompensada.

       – Não é necessário mestre, minha maior recompensa é poder servir para sempre ou até depois de morrer. 

     No quinto dia Lucrécia deve penetrar na nave mais próxima descobrindo: suas defesas, forças potenciais e qualquer informação pertinente. Desta vez a comunidade foi chamada no salão principal onde pinturas sobre o chão bem preparadas ornam no lugar dando-lhe um tom oficial ao evento. Abrindo os trabalhos ela adivinhou coisas escondidas para qualificá-la perante toda população.

     – Agora ela vai entrar no interior da nave mais perto daqui nos dizendo tudo que vê e tirando nossas dúvidas.

   Tão logo Altair avisa a multidão convencida, ela se concentra ditando o que está vendo.

   – Vejo a nave se aproximando duma biosfera no Dertônio (ali ficava Londres) e estou entrando pela comporta na parte inferior desviando das máquinas sugando moradores sendo controladas por pequenos homens de cabeça grande vestindo roupas plásticas com olhos escuros enormes que os prendem dentro dos cilindros transparentes...

    Subitamente ela interrompe sua divagação abrindo os olhos como se fosse outra pessoa vendo aqueles ao redor num tom de estranhamento ai continua falando com a voz mudada.

   – …parecendo vidro variadas pessoas indefesas.

   – Acordem ela rápido !

   Desperta do transe por Fulânio ela olha Altair com um tom curioso que é satisfeito quando ele reduz a luz e mostra símbolos protetores brilhar.

    – O que aconteceu senhor ?

    – Você estava pra ser possuída por uma mente superior que a viu espionar, criança.

    – E ela me seguiu até aqui se perdendo nas proteções ?

    Ele acena com a cabeça positivamente, depois explica aos presentes que magia é uma paranormalidade avançada capaz de manipular forças cósmicas alterando leis da física mas poucos compreendem estas palavras.

    – Mestre, ainda não sabemos as verdadeiras intenções dos inimigos; ela falhou !

    – Ainda temos 5 dias pra novas tentativas com melhor preparo e amanhã será melhor.  

     Altair pouco se importa com as intenções deles pois seu verdadeiro motivo de lutar é o desafio lançado que tirou ele da melancolia depressiva a qual vivia, aí Babonio se dá conta disso animando cada vez mais seu mestre nessa empreitada suicida.

     – Mestre, tive uma ideia; quem sabe usando as cópias de Arrasaverus num destes mortais poderíamos enviar ele como espião nas guarnições deles que conseguiria até transformar algum alienígena em imortal.

     Ele teve a previdência de falar isto em baixo volume num idioma esquecido mas Lucrécia entende tudo.

     – Vocês possuem feitiços na biblioteca para criar vampiros, posso vê-los ?!

     Sem perceber ela aumentou seus poderes ao ponto de notar tais comunicações, traduzi-las e comentá-las em público achando terem sido normalmente faladas. 

  – Vamos voltar a biblioteca criança, quanto ao restante de vocês vão cumprir seus afazeres porque amanhã nós tentaremos novamente.   

  Todo mundo obedeceu indo seguir alguma rotina e Babonio entende ter de novo dado um vacilo nas palavras  

desagradando seu mestre assim se penitenciando intimamente por isto.

   Altair chega em pensamento a deduzir que Lucrécia possa se tornar muito mais perigosa ao seu governo no futuro, relembrando o passado como lidou nestas ocasiões incômodas simplesmente matando o feiticeiro.

   – Vocês dois durmam bastante pois amanhã temos novos desafios. 

   Eles concordam indo dormir no cômodo adjacente da biblioteca já preparado pelo casal enquanto seu senhor ainda lembra ter matado Arrasaveruz quando ao perder a utilidade se torna um problema. Daí o bio-ritmo das luzes ascendem para acordarem no outro dia ainda abraçados de conchinha conversando suavemente sobre ontem.  

   – Amor, tive brevemente a sensação que não deve comentar as coisas deles quando escutar.

   – Ai Fulânio, eu tive a mesma sensação. Acho que causei constrangimento e será pior após essa guerra.    

   – Talvez devamos nos mudar no final dessa guerra meu amor.

   – Vai ser triste abandonar todo esse conhecimento antigo e raro. Más pensei nisso também.

   – E que tipo de sons baixinhos você consegue ouvir ? 

   – Pior que só o deles mas não toda hora eu entendo agora, é apenas durante a concentração.

   Hoje ela deverá ler para pôr em prática métodos de invisibilidade espiritual, como manter a mente em branco.

    Aqui sem o sol a rotina do sono é medida pelo relógio que dita quando devem dormir, dando para todos os mesmos horários de descanso e atividade.

   – Saiam depressa dos seus sarcófagos, o mestre ordena ! 

   Diferente de caixões, os sarcófagos geralmente estão na vertical presos pelas paredes.

   – Já basta Babonio. É bom que tenham acordado dispostos porque hoje teremos muitos afazeres. 

   Todos afirmam em uníssono um reverberante, sim pare ele na frente do servo que os reúne. 

   É explanada a possibilidade dos primeiros colonos saberem desta expedição dos segundos porém estando só de observadores não se envolvendo diretamente, por isto seguiram a mortal sem querer tomar nenhuma atitude.

   – mestre,e se de fato esses invasores estiverem é, unidos contra a terra ?

   – Aí estaremos perdidos porque seria igual enfrentar legiões de feiticeiros com plenos poderes.

   Sendo os vampiros criações de manipulações cósmicas (feitiçaria) tal conflito seria trágico para eles que podem ser facilmente atingidos por encantos da fé como água benta, ornamentos religiosos e purificações.

   É decidido que este dia será o último com tentativas e caso não descubram informações úteis vão liberar os humanos querendo partir tendo um entre eles a transformação feita pelas cópias guardadas como Babonio disse.

   – Mestre, sua magnanimidade é esplendorosa a seres indignos iguais aos tais humanos que consumimos.

   A Terceira projeção foi preparada com toda pompa daquela outra mudando só seu alvo buscando uma nave mais distante agora, coisa feita imediatamente por ter melhor magia protetora para Lucrécia além dum elo telepático na mente de Altair.  

   Saindo do corpo primeiro pelas pernas depois nos braços seguido do tronco até finalizar na cabeça que se desprende ignorando assombrações ali presentes arrastando a mente de Altair no processo.

   – Vejo ela indo na direção de pessoas querendo ser levadas, não consigo atravessar o casco mas como me recomendou vou apenas ir junto delas senhor pra evitar alardes nas proteções deles; entrei agora estou vendo gente sendo posta inconsciente em cilindros criogênicos e outros dissecados a níveis moleculares por estarem fora dos padrões desejados. 

   – Que padrões são estes criança ?

   – Eles possuem mutações que os tornam impróprios aos interesses dos visitantes.

   – Fale dos interesses deles criança.

   – Retirar humanos viáveis para mundos habitáveis durante 100.000 anos até a terra se recuperar das mazelas poluidoras reequilibrando sua natureza.

   – Então você diria que as intenções deles são boas ou malignas ?

   Todos ouvem tal conversa no salão principal e a pausa feita após esta pergunta deixa um ar de angústia.

   A imagem dela incorpórea é de uma cabeça feminina flutuante com cabelos cacheados esvoaçantes e os olhos telepáticos de Altair pairam abaixo da estrutura espectral invisível aos destreinados presentes na nave.

   – Não sei, más vejo Pilantros numa cápsula congelado !

   Inconformado, Afonso praticamente representando os curiosos ali de plantão pergunta sobre a proposta feita por Pilantrus que causou estas intervenções insólitas.

   – O que vão fazer com quem se entregou ?

   – Os humanos serão deixados à própria sorte em mundos que vão moldar nossa espécie nas gerações seguintes, não recebendo transferência de tecnologia tendo apenas ambientes sem infraestruturas livres da poluição onde os recém chegados viverão como na idade da pedra sujeitados pela seleção natural.

   Altair leu uma mente alienígena para passar estas informações na boca dela diretamente, infelizmente sendo ele notado nesta ação pelo mesmo ser que a sofreu e começou um vasculhamento psíquico naquela área.

   Nesta hora temem dela ser dominada pelas mentes poderosas daqueles seres, aí verificando os símbolos caso brilhem é sugerido tirar Lucrécia do transe por Altair que anunciou o problema.

   Retornando bastante cansada, ela desfalece nos braços do marido dizendo estar bem enquanto é amparada.

   – descreva esse, estar bem, seu sem tanta exaustão meu amor !  

   – Bem, vocês ouviram o que espera a todos que atenderem esse canto de sereia do tal Pilantrus. Quem quiser é só ir, não deterei ninguém e ainda os levo para superfície.   

   Ninguém ousa dizer uma palavra de resposta deixando o silêncio ensurdecedor no salão. 

   – Ora mestre, quem abandonaria este conforto pra viver como um primitivo nos confins da galáxia ?!

   – Eu acho que devo ir senhor.

   – Ora seu ingrato desprezível, tomara que não o aceitem e seja dissecado !  

   Altair constrangido repreendeu Babonio o olhando por uns segundos até se dirigir a Fulânio de forma afável.

   – Agora que ele parou de me envergonhar eu torno a confirmar minhas palavras e pessoalmente te levarei.

   Afonso tenta desmotivar o amigo dessa decisão com argumentos bem convincentes.

   – Amigo, você não teve sorte de chegar bem durante uma invasão, mas em tempos de paz aqui é ótimo.  

   Lucrécia reanimada de repente afirma também querer partir mas não agora ainda tendo muito a ler nos livros.

   – Eu separei dúzias de obras tradutoras para estudar além de alguns raríssimos exemplares que sempre quis ler.

   – Não se preocupem crianças, eu verei quais foram separados por ti e caso possa doarei a vocês os tais itens. 

   – Bom, eu adoraria ler Drácula se puder e o resto nem é tão vital assim.

   – Criança, aquilo é só uma ficção criada a partir dum imortal real que criei chamado Vlad.

   Num rápido monólogo Altair conta como criou Vlad para defender a região cigana transilvânia (descendentes  gipis) dos turcos invasores no final da idade média tendo ali livros sobre sua verdadeira história que doará também. Depois mudam o assunto para fazer preparativos como blindar  mentes das sondagens telepáticas e implantes de tatuagens com imagens protetoras.  

   Antes de Fulânio ir seguir os procedimentos da partida Afonso o presenteia com um leitor eletrônico parecido a uma pulseira comum na qual ele fala transmitindo mensagens mas as recebe num plugue no ouvido. 

   – Obrigado velho amigo, só não sei se vão deixar eu ficar com isso quando chegar lá ! 

   – Relaxa e veja se está funcionando direitinho.

   Afonso aperta um botão na pulseira e o plug auricular começa a repassar uma velha gravação de voz.

   – DESCULPE AMIGO, VÁ NUM LUGAR BARULHENTO ANTES DE  OUVIR ESSA GRAVAÇÃO, AI DEPOIS APAGUE ELA. EU ACHO QUE DEVIA ESTAR HIPNOTIZADO QUANDO TE CHAMEI AQUI MAS JÁ QUE VEIO TEM COISAS PRA VOCÊ SABER DO TIPO: SOMOS COMO ANIMAIS DE FAZENDA PRA ELES ORDENHAREM, OS TEMA PORÉM A SOBERBOS MAIS QUE TODOS E SE FOR EXPULSO OU QUISER PARTIR SERÁ CAÇADO ATÈ SER MORTO. 

   Ele termina de escutar apagando a mensagem no meio da multidão alvoroçada pelas notícias trazidas antes por sua esposa que ainda comentam desnorteados. Daí visivelmente abalado se aproxima de Lucrécia insinuando se o comentado na cama mais cedo não poderia demorar um pouco enquanto repensam melhor algumas decisões.

   – Não sei você, mas eu sinto que algo mudou pra nós e devemos acompanhar essa mudança partindo.

   – Mesmo assim meu amor vou avisar ao senhor que minha decisão mudou e suspendam os preparativos.

   No entanto quando Fulânio chega perto dele para falar está muito nervoso causando certa desconfiança nele que usa seu dom telepático descobrindo tudo instantaneamente suspendendo os planos em ação visando resolver este novo problema imediatamente antes duma inoportuna surpresa. Então Altair chama Afonso fazendo alguns  

questionamentos a ambos como se não soubesse dessas caçadas aos expatriados do Santuário.

   – Chegou ao meu conhecimento agora que estas práticas estavam acontecendo e quero esclarecimentos. 

   Afonso conta que alguns indo embora mantinham contato secreto via rádio com os residentes e narrando suas próprias mortes foi criado assim este temor incomentável.

   – E isto é tudo que sei senhor, por isto fiz a gravação pro Fulânio escondido na sala de máquinas quando veio a nós para evitar dele ser morto pelos grupos do Soberbos. 

   – Eu estou habitando o corpo que era dele agora, mas posso reviver suas memórias para confirmar tais coisas. 

   Certamente ele sabe dos detalhes mas nunca se importou devido a melancolia que sentia pois seu intuito é só convencer Fulânio de ser transformado pelos feitiços guardados do Arrasaverus em um vampiro resistente ao espaço, fato este prestes para acontecer quando certo discurso é feito.  

   – Não é preciso senhor, estamos convencidos de que nunca teve ciência dos crimes cometidos fora do refúgio. 

   – Mesmo assim meu caro Afonso, ter meus protegidos ameaçados por servos que juraram me obedecer é duma falta de capacidade imperdoável. Babonio traga um hibernante no caixão para eu sair deste corpo impuro.

   – Por favor mestre ocupe o meu corpo pra que possa servi-lo de corpo e alma realmente.

   – Não seja tolo, agora que é o segundo mais velho inevitavelmente seremos um em algum momento más não vou apressar tal situação jamais, agora me obedeça sem questionar. 

   – Perdoe-me Mestre, vou agora mesmo cumprir sua ordem !

   – Enquanto ele vai fazer seus afazeres meu caro Fulânio me escute. Agora é uma questão de honra cuidar da sua segurança até ser levado pela nave, então se submeta aos preparativos que impedirão aqueles sem a mesma vontade de partir serem rastreados por suas memórias. 

   – Obrigado senhor, farei como desejar imediatamente !

   Então começam as marcações para o feitiço com Altair usando seu próprio sangue como tinta nas tatuagens do Fulânio semi despido da cintura pro peito. Nisso Babonio chega trazendo numa maca flutuante um caixão onde hiberna um servo qualquer ultra obediente. 

   – Continuem sem mim enquanto faço uma coisa menos demorada aqui do lado.

   Abrindo o velho caixão ele toca seu ocupante no rosto se concentrando para na frente de todos os presentes começar a transmutação quando lentamente sua aparência volta ao indigno Soberbos e deitado na sua frente está Altair em vestimentas visivelmente desconfortáveis por serem menores.

   – Não se levante ainda mestre, deixe-me trazer-lhe trajes mais apropriados ao seu tamanho. 

   Sentado ainda dentro do caixão pensa ele no porque o idiota não escolheu alguém maior. 

   – Você não espera que me vista aqui aos olhos de todos não é ?!

   Em meio a essa trapalhada, Soberbos vai lentamente recobrando sua consciência lembrando só o que viveu antes da incorporação alguns dias atrás. 

   – Más o que está havendo aqui, onde estou, como fiquei vestido assim e quem são vocês ?

   – Cale-se na presença do mestre, seu maldito indolente.

   – Calma Babonio, Soberbos ainda vai demorar alguns minutos pra se recobrar.

   Indo se vestir adequadamente ambos ocupam seus respectivos lugares nesta autarquia improvisada e neste meio tempo Lucrécia é chamada a recitar encantamentos que desconhece as funções.

   – Não estudei estes textos pra poder executar eles adequadamente no que é preciso.  

   Recebendo a resposta que deve apenas fazer como foi-lhe ordenado ela obedece entoando a longa melodia.

   Escutando os cânticos Altair relembra quando a ouviu milênios no passado pela última vez com seu criador.. 

   Objetivando criar imortais resistentes ao sol, Arrasaveruz usou como base no feitiço o sangue do único naquele momento com tal qualidade e teve resultados bem abaixo dos esperados.

   – Arrasaveruz seu idiota, estas criaturas envelhecem com os séculos estando longe de serem imortais.

   – Que se foda Altemarquilope, eu não vou viver para sempre como seu escravo !

   A luta com o feiticeiro em plenos poderes é devastadora para um vampiro mas nesse caso não passou duma  

nova experiência ruim pro mais antigo deles que eliminou mais outro infame usurpador na longa lista.  

   Desde que matou Malus a tantos anos ele sabe ser um perigo manter feiticeiros em seu círculo de poder mas este queria imortalidade perdendo com isto os dons indesejados porém era dia e sua última estratégia foi levar aquela luta para as sombras das árvores hoje extintas favorecendo-lhe numa sangrenta vitória.

   Saindo das lembranças ele retoma o foco em Soberbos acusando-o de desobediência e condenando-lhe numa hibernação forçada perene sendo essa sentença não contestada pelo réu mas aplaudida por humanos. 

   – Ora mestre, aqueles infelizes nem estavam mais sob sua proteção e eu queria um pouco de diversão hahaha ! 

   Tudo fluia como esperado quando repentinamente as imagens dos símbolos protetores começam a brilhar com muita intensidade, chamando atenção geral para eles. 

   – Mestre, estamos sob ataque ?

   – Calma Babonio, alguma consciência incorpórea deve estar próxima daqui mas não vai conseguir nos ver.

   Contrariando as palavras dele, os símbolos desaparecem como se fossem incinerados pelo calor.

   – Vocês escutaram o mestre, nada à pra se preocupar então continuem seus afazeres e você entre no caixão. 

   Tão logo Babonio acelera Soberbos a cumprir sua sentença uma presença se torna visível para todos no centro do espaçoso salão atrasando o processo e causando pânico geral menos no único que reconhece ela. 

   – Inacreditável, Enoque é mesmo você ?!

   – E quem mais eu seria Altemaquilope ?!

   – Más você deveria então ter mais de 20.000 anos !

   – Pois tenho, já que a tecnologia médica no mundo onde vivo é muito avançada me dando uma imortalidade sem sua necessidade asquerosa de consumir sangue dos pobres mortais.

   – Com essa lingua afiada como sempre, só pode ser mesmo você, velho amigo.

   Ao tentar tocar nele, a mão de Altair o atravessa como se fosse um holograma do fantasma.

   – Amigo não é bem o termo que eu te definiria para mim. Talvez considerasse mais um incômodo que tinha de aturar durante minha vida neste planeta. Mesmo odiando espero ter ajudado-lhe a entender seus dons meu aluno.  

   – Sim, de fato foi naqueles tempos, no entanto hoje em dia não preciso mais aturar seu mau humor contra mim.

   – Muito pelo contrário meu velho.

   Neste momento Altair está virando–lhe as costas quando Babonio pergunta irritado.

   – Que devemos fazer para afastar essa entidade petulante mestre ?

   – Apenas ignore !

   – Infelizmente isso não será tão fácil quando souber da minha missão aqui na Terra !

   – Já posso imaginar pelo tempo que passou com os primeiros colonizadores das estrelas.

   – Durante meu convívio nas estrelas me deram conhecimentos avançados pra ir no mundo prisão onde estão os demônios (rebeldes criminosos banidos num planeta vulcânico) descobrir quais feitiços usaram na criação de vampiros, Naquele verdadeiro inferno interroguei inúmeros malefícios que só desejam atrapalhar a evolução da moralidade humana inviabilizando seu contato com o verdadeiro Deus. 

   – Que bom para você Enoque mas agora se me dá licença temos preparativos a fazer.

   – Nada mais fará aqui Altemaquilope, pois lá encontrei Inomenus o influenciador de Malus e como já podem imaginar ele foi forçado a contar como desfazer sua criação profana. Durante milênios discutimos quando íamos usar esta solução ficando decidido ser agora no arrebatamento total. 

   – Pois saiba que resistiremos criatura imaterial; Babonio me liberta destas correntes com prata pra me juntar a vocês na luta contra o barbudo careca de camisola.  

   – Lutar ao lado de um excluído ? Vai sonhando Soberbos, agora entre logo no caixão pra dormir eternamente !

   Repentinamente outras aparições se fazem ser vistas com pelo menos dois metros magros vestindo mantos com peles acinzentadas, olhos escuros sem pálpebras nem orelhas e tendo cabeças enormes.

   – Este deslocamento da humanidade teve uma aprovação celestial geral senhores e isto significa que nada podem fazer para contrariar posicionamentos superiores.     

   Enoque ainda está falando quando Lucrécia percebe que estão sob ataque tentando gerar símbolos místicos.

   – Não os provoque criança, estes seres provavelmente criaram todo tipo de defesa mística que estudou aqui.

   – Senhor, eu estava tão concentrada que nem percebi estes projetores mentais. O que devo fazer ?

   Antes que Altair possa responder, Enoque interrompe tomando a palavra para esclarecer essa situação.

   – Altemarquilope, a inocente aprendiz nem deve imaginar seus nefastos planos para ela quando esta situação acabasse ou no que estava quase fazendo ao próprio marido sem saber.

   – Enoque, o que tiver de fazer faça logo e me poupe de suas torturas morais.

   – Na nova ordem que surgirá não haverá espaço para vampiros e a forma mais eficiente de eliminar todos é tirar o mal do primeiro deles purificando assim os outros.

   Uma das aparições alienígenas gesticula entoando incompreensíveis cânticos e Altair se sente paralizado.

   Neste momento ele se odeia pois se tivesse um bruxo de confiança certamente teria alguma forma de evitar esta realização forçada mesmo que fosse por apenas alguns poucos anos a mais.

   A mão de Enoque se ergue na direção dele entoando palavras em línguas estranhas enquanto Babonio tenta agredi-lo sem nada tocar já Lucrécia faz feitiços bloqueadores também inúteis sendo contida pelo marido que interrompe sua ação afastando-lhe gentilmente dali com uma simples afirmação sussurrada.

   – Amor, não há mais nada que possamos fazer.   

   Naquele segundo Altair sente algo que não vivia desde 28.000 anos no passado quando bebeu sangue pela primeira vez, sendo ele mortal. Repentinamente tal sensação se transfere aos vampiros presentes indo aos mais afastados pela galáxia estejam onde estiverem.

   – Mestre, minhas dores recomeçaram !

   Babonio sente novamente as dores da doença que o enlouquecia em desespero frequente quando era vivo, nos caixões os hibernantes acordam gritando por estarem sufocando lá dentro sem ninguém ouvir, num santuário ali perto vampiros reunidos próximos dum reator gigante vazando radiação como baratas penduradas no teto agora despertam para morrer envenenados, no espaço uma nave viajando descomprimida totalmente inadequada a vida humana tem seus tripulantes mortos após deixarem de ser imortais, pela Terra inteira quem se destransforma é arrebatado e voltando ao esconderijo do primeiro vampiro…

   – Você sempre quis me destruir desde que nos conhecemos Enoque e agora finalmente conseguiu. Gostou ?

   – Nunca tive desprezo por você Altemaquilope, tive sim pelo monstro que foi durante tanto tempo. 

   Nisso Babonio cai no chão sentindo dores terríveis mas ninguém parece se importar por todos repudiá-lo. 

   – Mestre, estou morrendo, me ajude ! AAAAAAHHHH   

   – Talvez eu tenha sido mau em certas coisas. Porém ele, transformei para nunca morrer nessa agonia aflitiva, já você tem conhecimentos superiores, porque não o ajuda ?   

   – Porque seu organismo está além de qualquer ajuda, mesmo com a cura do seu mau o corpo já estava muito debilitado pra alguma intervenção como você devia saber quando transfigurou-lhe. Eu só posso dar-lhe alívio.

   Lucrécia é a única que tenta acudir Babonio caído naquele sobretudo escuro, um careca fragilizado e feio. 

   – Senhor, precisamos levá-lo ao setor médico antes que ele morra !

   Respondendo por Altair para ela, Enoque se aproxima com a ponta do dedo tocando-lhe na testa dizendo:

   – Renuncie seus pecados e venha comigo.

   – Mestre, o que devo fazer ?!

   – Eu o liberto da tua promessa de servidão eterna Babonio, agora decida por si mesmo como deseja morrer.

   Ele aceita o convite de Enoque no último segundo morrendo em seguida com uma expressão já aliviada da dor enquanto apenas Lucrécia nota algo semelhante a um vaga-lume brilhante sair daquela boca fétida do Babonio indo para mão deste ser eterio que some lentamente com seus aliados.

   – Bem, agora que eles se foram, ponham o defunto no caixão e tirem estas correntes de mim porque não sendo mais imortal vou morrer sufocado ali.

   Altair pondera sobre a demanda petulante de Soberbos se portando para respondê-lo quando lembra dos outros caixões ocupados com hibernantes e grita mandando alguém ir libertá-los antes que morram asfixiados.

   Um servo agora humanizado corre pelo salão atendendo a ordem o mais depressa possível quando um tremor sacode tudo semelhante ao terremoto do santuário anteriormente. 

   O teto se abre para uma luz intensa invadir como inundação num comportamento quase líquido invadindo os espaços fechados com grossas portas metálicas até alcançar cada pessoa do lugar. Então começam fluxos de sucção arrastando toda população pelo buraco aberto acima deles no salão principal sem exceções.  

   Soberbos está sendo levado quando as correntes prendendo seus pulsos, tornozelos e pescoço se enroscam no encanamento rompido enforcando ele de cabeça para baixo.

   Nos caixões metálicos os ocupantes ainda vivos são salvos pois as trancas ficam do lado exterior e depois vão também fazer parte daqueles arrebatados na nave seletora flutuando no deserto enquanto faz a escavação de luz. 

   A partir de agora é o fim da aventura humana terrestre, começando depois que as viagens terminarem em cada neve odisseias nos próximos mundos, livres de vampiros. 


                                                                                   fim

Nenhum comentário:

Postar um comentário